Archive for the ‘Entrevistas’ Category

Confronto, sem parar!

novembro 27, 2008

Algumas pessoas já me falavam que o show do Confronto era uma coisa memorável. Tive que esperar a banda voltar da Europa para ver isso de perto. Viajei 2h30 do extremo sul ao extremo leste da capital paulista e pude encher meus olhos com um show nervoso, realizado Luar Rock Bar, cheio de energia, e com a galera agitando selvagemente e cantando todas as músicas. É, era verdade mesmo.

Esse foi o primeiro show após a quarta turnê européia e o reencontro com o público brasileiro, que eles afirmam ser o melhor.

Antes de começar o show, chamei os Felipes da banda (o Chehuan e o Ribeiro) para falar um pouquinho de como foi essa experiência, a recepção do Sanctuarium pelos europeus e um pouquinho do que vem por aí.

por Márcio Sno
Fotos por Maurício Santana

img_3344O que essa turnê na Europa teve de diferente das outras?

Felipe Chehuan: Começando pelo clima, que da outra vez que a gente foi era outono e a chance de tocar com uma banda americana [Die Young] em turnê o tempo inteiro. Ter o público que buscava mais o som dos americanos e o público que buscava o som do Confronto e isso no final foi bom pra gente porque os shows estavam cheios. Essa foi a principal diferença.

Felipe Ribeiro: A nossa primeira turnê a gente ficou um mês, a duas turnês que a gente tinha feito depois, além de a gente ter ido sozinhos, ficamos dois meses e meio, três meses. Dessa vez a gente fez um mês e tocamos em lugares bem legais.

Qual o balanço geral dessa turnê?

FR: Muito bom! Muitos contatos, coisas que no Brasil seriam impossíveis fazer, só estando lá mesmo para resolver. Fizemos muitos contatos, convites. Fizemos muitos shows bons, tocamos em vários locais onde a gente não tinha tocado ainda e algumas coisas que ainda não podemos adiantar, que não é oficial, mas acredito que pra janeiro ou fevereiro vai ter notícias boas dessa turnê na Europa.

As bandas do Brasil que vão tocar na Europa, geralmente vivem de favores na questão de lugares para dormir, comer etc. Com vocês foi da mesma forma? Como funciona isso?

FC: Tem um pouco disso que você falou, mas não é bem isso não. Não só as bandas do Brasil que ficam de favor. No geral, a Europa te dá um acolhimento muito maior do que em outros lugares. Coisa que nos Estados Unidos não acontece e em outros não acontecem. Na Europa, geralmente, já está incluído você receber um alojamento, receber comida, café da manhã…

FR: Falando por nós, a gente já fez a quarta turnê européia, tem uma agência lá que monta a nossa turnê, que cuida de tudo, então quando a gente já vai, a gente já tem uma van pra fazer a turnê, já sabe que vai ter alimentação, onde vamos ficar, tem uns clubes que já têm alojamento para as bandas, a gente fica em hotel, casa de promotor [de shows]. A última preocupação que a gente tem é essa.

FC: Por exemplo, a gente é vegetariano, vegan, e nem se preocupa quanto a isso, porque todo mundo já sabe que a nossa comida já está lá separado.

Houve algum fato interessante nessa turnê?

A gente encontrou o Redson do Cólera, ele foi num show da gente na Holanda. Depois que tocamos, fui falar com o ele e perguntei: “agora me fala, como foi essa parada de vir pra Europa por carta?” E ele me contou tudo, dessa loucura… Também encontramos o pessoal do Paura, lá na Polônia, eles estavam em turnê por lá também. É muito bom saber que as bandas brasileiras estão tocando bastante por lá.

Vocês acabaram de chegar da Europa e já encaixaram um restinho de turnê no Brasil. Vocês não descansam? Onde é que vão tocar até o final do ano?

FC: No Natal e Ano Novo a gente vai descansar com a família, e em janeiro a gente já começa de novo. Não pára, a banda não pára. Esse ano tem o show de hoje [21/11, no Luar Rock Bar, em São Paulo], na semana que vem a gente toca com o Dead Fish em Belo Horizonte e de lá vamos para o Espírito Santo tocar com o Mukeka di Rato.

Alguém se perdeu lá na Europa?

FR: Dessa vez não! É que dessa vez que a gente foi, a gente teve pouco tempo pra sair, pra conhecer as coisas e é frio, muito frio. E quatro horas da tarde já está assim [escuro]. E rotina foi meio assim: van e foi para outro lugar, dormiu, acordou, saiu de novo… É muito rápido, não deu pra se perder!

Do disco Sanctuarium, quantas cópias oficiais já foram distribuídas?

FC: Isso aí é com a gravadora, a gente não sabe. No Brasil a gente já sabe que a primeira prensagem já foi e na Europa tem os vinis e a gente está em contato também com os lançamentos e está legal. A gente está numa época em que CD já não vende muito, mas a internet facilita um alcance muito maior. A música hoje chega em todo o canto.

FR: Hoje os CDs que a gente tem são os que a gente tem na mão, o restante acabou. Os caras às vezes perguntam: “como assim, acabou?”. Não sei, estamos dando sorte e estamos vendendo.

img_3345Como o novo disco foi recebido pelos europeus?

FC: Saiu em vinil, a gente ficou surpreso quando pegou o vinil que saiu na Itália, já tínhamos 15 dias de turnê quando a gente pegou o vinil. Foi um selo italiano junto com um russo que lançaram. E o pessoal que lançou na Itália que entregou nossa quota. A recepção está a melhor do mundo, já começando pelo Myspace onde upamos duas músicas, que teve uma resposta européia muito boa, e chegou na Itália e como no ano passado, os caras cantando as duas músicas em português, “Santuário das almas” e “Abolição”, logo de cara, todo mundo estava cantando, isso foi muito legal. Parecia que estávamos aqui, no Brasil. E no final da turnê, os americanos já estavam cantando em português! Tem até foto na internet dos caras cantando “Santuário das almas”. Foi foda!

O que falta para o Confronto conquistar ainda?

FC: Se eu parasse agora, eu já estaria muito feliz por tudo que a gente conquistou, mas isso não é a nossa meta, pois estamos numa sintonia muito legal, já estamos completando 10 anos de banda no mês que vem e a gente ainda quer muita coisa, a gente ainda vai conseguir muita coisa. Se tudo acontecer do jeito que as coisas estão vindo, se a metade das coisas acontecerem já vai ser muito bom.

FR: A verdade, que a gente é uma banda essencialmente vinda da Baixada Fluminense, lá do Rio de Janeiro, então pra gente que é uma banda que tem 10 anos e já conquistou 4 turnês européias, a quantidade de gente que a gente conhece, a quantidade de lugares que já tocamos, ter vendido todos esses CDs até hoje, acho que é uma coisa muito, mas muito significativa pra gente. Só que a gente está numa mentalidade de que 10 anos é o começo, estamos começando. Pois se você for ver, o Sanctuarium é o segundo CD, pois o primeiro é um EP com 6 músicas, então tem muito pneu pra queimar ainda, muita estrada pra pegar e muito rock and roll ainda!

Para conhecer mais:
http://www.myspace.com/confronto
http://www.fotolog.com/x_confronto_x
http://www.diariodatour.wordpress.com

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Coaccion, d-beat para mudar pensamentos

novembro 25, 2008

Por Deise Santos

coaxxxA cidade de Tijuana, no México, é conhecida por abrigar cartéis do narcotráfico, mas não é só de violência que vive o povo daquela cidade. Na esquina do México, como Tijuana é conhecida, começou em 2001 a trajetória de uma banda de crust/d-beat que escolheu a música como forma de protestar e mudar a visão das pessoas. Coaccion impressiona na primeira audição, é crust/d-beat direto e viciante.
O quarteto aportará nas terras brasileiras em março de 2009 para um série de shows espalhados por Rio de Janeiro, São Paulo e outras a confirmar.
Mas enquanto o ano novo não chega, o vocalista e baterista da banda, Manuel, bateu um papo com o Revoluta pra contar um pouco da história da banda, da cena mexicana e das expectativas em relação à turnê brasileira.

Quando e como a banda começou?
A banda começou quando a banda Discordia acabou no final de 2001 e decidimos começar uma banda de crust/d-beat em Tijuana/México.

Primeiro “Discordia”, agora “Coaccion”. Como é feita a escolha do nome?
Discórdia era uma banda de grind/crust, mas direto nos problemas universais era uma discórdia contra tudo.
Coaccion é diferente tanto nas músicas como nas letras, são mais diretas, contra as pessoas. Coaccion significa utilizar a violência para mudar a forma de pensar das pessoas.

Quais as influências musicais dos integrantes?
Bom, as influências que temos em comum são: Skit System, Meanwhile, Neurosis, His hero is gone, Kontrovers, Discharge, Dystopia e Shitlist.

A banda tem material lançado e a própria banda faz a distribuição. Como funciona isso?
Sim, a banda até agora tem 3 CD’s lançados e 2 EP’s em vinil, todos por diferentes selos e distros. Nós temos um selo/distro chamado Satan Terrorex e fazemos a nossa própria distribuição e de material de outras bandas com fazemos intercâmbio. Nossos selos são: Despotic Records, Cryptas Records, Morvid reallity Records, Satan Terrorrex e, em breve, haverá um novo EP vinil lançado por Vex Records (USA). Na turnê brasileira haverá material destes selos e um CD especial para a turnê com músicas de todos os discos da banda.

Como foi a idéia de ter o próprio selo/distro?
Essa idéia nasceu para podermos distribuir nosso material e a cena underground. Somos punks! Foda-se o mainstream!

E por falar em cena… Como é em Tijuana?
Aqui a cena está um pouco dividida, mas está bem. O que acontece é que a cidade é refém do narcotráfico, drogas e corrupção. Tem muita violência e as pessoas estão assustadas… Todos os dias tem mais de 15 mortos só nesta cidade! Por isso as pessoas estão muito assustadas e sair na rua é muito complicado. Mas a cena punk underground é boa.

Quais bandas que existem no México para escutar?
Existem muitas bandas boas no México, como: Bumklaatt, Biocrisis, Viceral Carnage, Antimaster, El Santo, Miseria Humana, What if gods lie, Atroz Destruccion

coaxx-fotoE quais bandas do Brasil você conhece?
Scum Noise, ROT, Disärm, Disköntroll, Armagedon, Olho seco, Ratos de Porão e muitas outras!

E que tal a turnê que vão fazer no Brasil em 2009? O que pensam que irão encontrar aqui?
Estamos muito interessados em ir para o Brasil pelas pessoas que queremos conhecer, a cena brasileira, trocar idéias, ver as pessoas como são por aí e mais que nada passar bons momentos com as pessoas do Brasil!!! Nos encanta sua música e cultura!

Tem uma coisa na banda que não é muito comum. Você canta e toca bateria…
(risos) Sim, não tem muitas bandas que fazem isso, mas aqui desde que começamos a banda (Rodrigo e eu, Manuel) fizemos dessa forma e assim ficou (risos).

Bom Manuel, obrigada por responder a entrevista e deixo o espaço para dizer o que quiser:
Bom, quero agraceder a você Deise, pelo apoio!!!! Mil gracias!!! A Denito que está fazendo o booking da turnê aí pelo Brasil e se querem entrar em contato aqui está:
coaaxx@hotmail.com
www.myspace.com/coaccion
Obrigado a todos e nos vemos muito em breve!!
MORTE AOS TIRANOS!!! BRASIL TOUR MARZO 2009 – COACCIONMAFIA.

Coaccion é:
Manuel (bateria/voz)
Rodrigo (guitarra)
Marco (baixo)
Gerardo (guitarra)

Risadas, baratas e rock n’ roll

novembro 25, 2008

Por Márcio Sno


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Dá pra imaginar um cara que vive o rock publicar um livro para colorir? Não. “Para colorir” é o nome do livro. Mas não um livro comum. Um livro musical feito por um cara que respira música e é um ser comum como todos nós: sente friozinho na barriga quando encontra com uma pessoa que admira, tem medo de barata… Essas coisas. Mas Ricardo Cury possui algo que poucos normais têm: a sensibilidade para observar “situações pautáveis” e o talento para escrever bem. Tá, também tem um inteligente gosto musical, que podemos conhecer nas páginas desse livro – para cada texto tem pelo menos uma referência musical.

O livro com mais de 300 páginas foi lançado de forma totalmente independente e já vendeu muitas cópias (em relação a publicações independentes) que o autor distribui naquele velho esquema de zines: enviando pelo correio ou em lançamentos por todo o país.

Aumente o volume e confira um pouco do que o baiano tem.

Pode parecer banal a pergunta, mas por que o nome “Para colorir”?
Uma das coisas, talvez a principal, é que sempre recebi um retorno das pessoas que liam os textos no blog, comentando sobre a coisa do humor, que se divertiram lendo, deram risada… Disso vem o colorir. Algo como “Para se divertir”. Pra mim, risada tem a ver com cores. Outro fator também importante é o conceito gráfico do livro, todo em preto e branco, que, por sinal, foi também pensado dessa forma para baratear os custos, já que eu que banquei essa primeira edição. Se tivesse cor, seria muito mais caro.
E por fim, a contradição de usar no nome um termo que é atribuído aos livros infantis…

Você já distribuiu 75% da tiragem do livro. Qual o balanço que faz?

Estou bastante satisfeito com o que o livro fez. Fiz 1000 exemplares, vendi 590 e dei 200 pra divulgação. Isso tudo nesse ano de 2008, que foi o ano do seu lançamento. Ainda tenho uns 200 e pouco, que aos poucos vão saindo. Por semana vendo dois, às vezes três… Mas sempre vende. Outro balanço importante que faço é o da distribuição por empréstimo. Pessoas que emprestaram o livro pra algum amigo ou parente. Sempre recebo mensagens desse tipo, de gente que leu o do vizinho, da namorada… O que me faz perceber que o livro tá circulando por aí. Uma amiga minha disse que todo mundo que lê o exemplar dela tem que assinar. É a melhor forma de divulgação. Vale mais que 30 segundos no intervalo do Jornal Nacional.
Por fim, o balanço financeiro, onde o livro, apesar de ser em PB, custou caro, tem 320 páginas, papel pólen, e esse retorno financeiro nas vendas foi bastante significativo pra equilibrar os seus custos.

credito-angelo-monteiro1Não é muita ousadia lançar o seu primeiro livro sem o nome do livro e do autor na capa?
Talvez… Mas é uma das coisas do livro que olho hoje e não me arrependo. Primeiro que considero o desenho de Ricard, ilustrador do livro, fabuloso. Daí, não tinha porque eu colocar o meu nome ou algo em cima dele. E um livro não é um outdoor, onde as informações têm de estar perfeitamente visíveis. Livro é uma coisa pra você, na primeira vista, abrir, futucar, folhear, ler… E nesse tempo, todas as informações (o nome do autor, o nome do livro, do ilustrador, do revisor, do diagramador) vai ser achado facilmente. Outra coisa também é que já me exponho demais dentro do livro, nos textos, pois falo de acontecimentos reais, daí não precisava me expor fora dele, com meu nome gritando na capa.

O livro tem um formato que lembra um disco: textos soando como faixas e até um espaço no final do livro que lembra uma faixa escondida. A intenção era essa mesma de deixar com cara de disco?
Sim. A música é o que dá o tom do livro. O livro só existe por causa da música, da minha carreira de baterista, tentando ter uma banda de rock and roll que fizesse sucesso. Os rodapés são para as músicas citadas nos textos e seus autores, discos, ano de lançamento e capinha do disco. Fico feliz que você tenha tido essa impressão.

Nas situações descritas em seus textos você pensava “isso dá um bom texto” ou só percebeu isso depois?
Em alguns, sim e em outros, não. No texto do meu encontro com Caetano, por exemplo, é um que seria muito óbvio eu pensar que daria um bom texto, mas na hora isso não me passou pela cabeça. No dia seguinte ao fato, em Recife, na praia, eu estava sentado na areia quando comecei a pensar “e esse encontro com Caetano Veloso no avião… que loucura… e quando ele disse que gostava da brincando de deus (minha banda)… e quando ele falou que era fã do Pixies… e quando ele paquerou a aeromoça… porra, isso dá um texto”. Na mesma hora fui escrever.

Cada texto do livro traz uma ou mais referência de músicas. Tudo em sua vida tem uma trilha sonora?
Acredito que na de todos nós. Música é a arte mais difundida no mundo. Em todo o momento se está ouvindo música. No trabalho, no trânsito, em casa, no mar, nos bares…

Já pensou em lançar uma trilha sonora do livro?
Rapaz, um podcast seria uma ótima idéia… Curti.

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Quando você lançou o livro, afirmou que tocar estava fora de questão. Ainda mantém esse discurso? Até quando acha que vai resistir?
Yeah. Mantenho esse discurso com muito prazer. Sempre que alguém chama pra fazer um som, a resposta básica de um músico é aceitar. Depois que decidi parar de tocar, ainda assim, sem querer, aceitava fazer alguns shows com amigos, e sempre pensava “pra quê fui aceitar?”. Um dia, um amigo me chamou pra tocar num show com uma banda e tal e eu disse “não”. Ele me olhou surpreso, perguntou porque e eu repeti “não, não quero tocar”. Foi incrível a sensação. Depois desse dia me libertei de vez. Falo “não” na maior tranqüilidade e alegria.
Porém, até quando, não sei mesmo.

Você é um cara que toca, vai a estádios, lança livro e viaja o Brasil todo, sem ter retorno financeiro com isso. Como a Cris lida com isso?
Tenho meus trabalhos, inclusive todos na área de redação, que fazem a parte do retorno financeiro, e muitos destes trabalhos foram conseguidos a partir do livro, colocando ele como parte do meu curriculum vitae.
Cris, por ser engenheira, tem uma visão mais exata das coisas, e essa coisa de trabalho freelancer nunca foi nada exato, o que sempre a incomodou. Porém, com o tempo e a convivência, eu fui ficando mais exato e ela um pouco mais emocional… aí chegamos num equilíbrio que faz as coisas fluírem de forma tranqüila.

yestenho_bananaCom o seu livro, Leonardo Panço tomou coragem para lançar o “Caras dessa idade já não lêem manuais”. Como é isso para você? Houve mais situações do tipo?
O seu trabalho influenciar uma pessoa dessa forma é realmente um ponto de vista interessante pra achar que fez a coisa certa.
Houve algumas situações parecidas com a do Panço, sim, de gente que, a partir do meu, criou coragem pra fazer um livro também, principalmente quando perceberam que podiam fazer de forma independente, sem precisar de uma editora. Mas sempre recomendo: corra atrás pra divulgar e vender.

Qual história gostaria de ter colocado no livro que não entrou?
Existem algumas histórias que foram tiradas da edição final, assim como outras que foram colocadas… A vontade de mudar acontece o tempo todo, então não dá pra ficar pensando “aquela história poderia ter entrado”, pois, com certeza, mais tarde, acharia que era aquela outra quem deveria ter entrado… Acho que o livro tá beleza como tá. Talvez mudasse algumas coisas, mas ele é o que é e pronto. Uma hora tem de terminar o trabalho. Ou melhor, abandonar o trabalho.

No livro você conta histórias de seus encontros com algum de seus ídolos. Quem você ainda precisa encontrar para contar uma história?
Alguns poucos… McCartney, Ringo, Michael Stipe, Angeli, Ziraldo, Mauricio de Souza e Quino.

Como anda a sua fobia por baratas? “A Metamorfose” de Kafka é um livro de terror para você?
Rapaz, barata é foda. Um bicho daquele tamanho, que coloca pra correr diversas pessoas ao mesmo tempo, é, no mínimo, para ser respeitado. Entrando na questão acima, esse texto das baratas é um dos que às vezes eu penso que não deveria ter entrado… Mas depois mudo de idéia.
“A Metamorfose” causa um asco, mas não chega a ser terror. A história é mais intensa que o bicho. Um amigo meu disse que ia fazer um curta de um minuto, encenando “A Metamorfose”. Quando ele viraria barata, iria olhar pra câmera e dizer:

– Boa porra.

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Lançamento de “Para Colorir” em São Paulo

Dia 29 de novembro, sábado, às 16h

Livraria Pop – http://www.livrariapop.com.br

Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 297, Pinheiros, São Paulo – SP

Contatos:
http://www.ricardocury.blogspot.com

cury78@terra.com.br

Créditos:

Foto por Angelo Monteiro

Ilustrações por Ricard

Ariel “old punk rocker” fala sobre sua vida e a cena underground

outubro 1, 2008

Não tem como falar de movimento punk no Brasil sem citar o nome do Ariel. Figura recorrente dentro da cena underground paulistana, Ariel nasceu na Freguesia do Ó, cresceu de forma simples e logo cedo teve contato com a música.
Em vez de ficar aqui tecendo teorias, o Informativo Revoluta abre o espaço e deixa o Ariel contar como tudo começou, num bate-papo que virou um grande perfil de quem é esse cara que vestiu a camisa do movimento underground nos idos anos 70 e até hoje está aí, resistindo e fazendo o punk rock acontecer, em qualquer bar, qualquer esquina.

Por Deise Santos

Ariel onde você nasceu e cresceu? Qual a sua origem?
Nasci em São Paulo – Capital – Freguesia do Ó – ano de 1960 – Meu pai foi Peão (Mecânico) e minha mãe, solidão (Dona de Casa), como diria o poeta. Estudei até o 2º Grau no E.E.T.A.L., no Bairro do Limão, de onde fui expulso, por ser um delinqüente juvenil, terminando no Colégio Righini no mesmo bairro. Minha infância foi como de qualquer moleque da periferia da Zona Norte, ou seja, rebelde e malcriada. Roubava frutas das casas vizinhas, caçava passarinhos, andava de carrinho de rolimã, empinava pipas, soltava balão, jogava muita bola, rodava pião, brigava com os moleques da rua de baixo, etc. Até conhecer a filosofia de Nietzsche, o existencialismo de Sartre, o teatro da crueldade de Artaud, a poesia futurista de Mayakovsky, a literatura revolucionária de Gorky, o Surrealismo, o Dadaísmo e todos os que iam na contramão da história que nos era contada. Minha adolescência foi nos anos 60 e 70 e eram tempos difíceis para quem era jovem e rebelde, pois a ditadura instalada no país mostrava suas garras e prendia, torturava e até mesmo matava seus detratores. Comecei na música muito cedo, por volta de 1970 e com o que podia escutar de Rock’n’Roll, tive minhas influências nas bandas malditas, como: The Stooges, MC5, New York Dolls, Dust, Cactus, Pink Fairies, etc. Já no meio dos 70, com o Punk Rock ditando as regras, passei a fazer parte dessa nova onda e no final de 78 já fazia parte da primeira banda desse estilo no Brasil, a Restos de Nada.
Nunca me considerei importante nesse movimento, acredito ser apenas mais um produtor interessado nessa cultura que me apaixona e me move cada dia mais e que começou pela minha alma rebelde e contestadora, assim como é o Movimento Punk, desde o seu início.

O punk rock pra você não é só uma balada, é um estilo de vida, assim como é para muitas pessoas. Em que momento da sua vida você notou que não tinha mais volta, que estava totalmente envolvido com a cena?
Realmente o Punk Rock para mim é muito mais que uma balada e chegaria a dizer que não é um estilo de vida e sim, minha própria existência. Notei que não tinha mais volta quando tive contato com o primeiro disco dos Ramones. O visual da capa me inspirou muito e depois de ouvir o som pela primeira vez, notei que era isso o que queria ser e fazer. A partir daí comecei a me aprofundar nessa história e procurar outras coisas compatíveis com esse novo estilo e a partir disso não parei mais…

Junto com outras pessoas você ajudou a construir a cena underground paulistana, ousando e quebrando barreiras. Conte como foi organizar o “Começo do Fim do Mundo” e o “A um passo do fim do mundo”.
“Ousar e quebrar barreiras”, foi isso exatamente o que aconteceu no sopro inicial do movimento e com pessoas que estavam dispostas a encarar as diversas dificuldades impostas, começando pela família, que pela carga de preconceito e desinformação, não entendia as verdadeiras necessidades de uma juventude sedenta de Informação e Liberdade a qualquer custo.
Bem, O Começo do Fim do mundo foi organizado pelo Antonio Bivar, autor do livro “O que é Punk”, pelo Callegari (Inocentes) e pela Meire, que era sua namorada na época. Eu fazia parte da Inocentes, que era “A” banda do Movimento e por conseqüência acabamos nos envolvendo com esse projeto também, mas os méritos são dos caras. A dificuldade principal desse festival foi unir as diversas facções que compunham o Movimento de 1982, principalmente a rivalidade entre as gangues de São Paulo e ABC paulista. Mas acho que no fim, aconteceu o que tinha que acontecer e a visibilidade para o mundo foi o ponto mais positivo.
A Um Passo do Fim do Mundo de 2001 e O Fim do Mundo de 2002, foram organizados por mim, pelo Bivar, pela Tina e pelo Cuga, e contamos com muitas dificuldades, pois eles foram inseridos na Semana Jovem da Prefeitura de São Paulo e sujeito a várias sanções e dificuldades, mas no fim acabamos fazendo na raça mesmo e a participação das bandas e das pessoas envolvidas foi fundamental. Em 2001 foram 54 bandas a se apresentar, sendo todas de São Paulo e em 2002 subiu para 64, sendo aberto para outros estados, como Pernambuco, Curitiba, Rio de Janeiro, Minas e Interior de São Paulo.
Nunca recebemos 1 centavo por tudo isso, apenas a satisfação de realizá-los.

Você sempre foi muito ativo dentro do movimento punk seja participando de bandas, organizando shows ou em grupos anarquistas. Fale um pouco dessas experiências e o que cada uma delas contribuiu para a sua vida:
Sim, reconheço que sempre fui muito ativo, desde os anos de chumbo, onde as gangues espalhavam o terror pela cidade e eu era parte integrante dessas funções, mas não era só isso, já desde muito cedo, quando tinha meus 17 anos, colecionava discos e fazia sons pelos bairros, onde o pessoal ia para dançar, namorar e tudo mais. Quando me vi envolvido com bandas, apesar de não tocar porra nenhuma, já pensava em locais onde pudéssemos nos apresentar e criar condições onde não existia nada e fizemos muita coisa em cima de caminhões, em praças públicas (puxando “gatos” dos postes), em sociedades amigos de bairros, etc.. Nessa época já estava envolvido também com grupos revolucionários, como os Trotskistas: “OSI – Organização Socialista Internacionalista” e “Convergência Socialista”. Mais tarde passei a desconsiderar esse lado Comunista e passei a adotar o Anarquismo como forma de organização política e criei o grupo “Ação e Anarquia” que esteve muito ativo por anos, numa luta contra o sistema e contra os neo-nazistas. Bem, tudo isso serviu para eu me tornar uma pessoa melhor, no sentido de não aceitar as injustiças desse mundão e a não esperar nada de ninguém, levando a máxima “Faça Você Mesmo” ao pé da letra.

Você percorreu os 30 anos de punk rock, vivendo a realidade de repressão policial, ensaios em garagens, shows em cima de engradados de cerveja e briga entre gangues. Qual é a visão do Ariel “old punk rocker” sobre a cena no decorrer desses anos? Pontue, na sua opinião, os
momentos históricos nesses 30 anos de anti-cultura:
A cena do começo era o Caos, onde uma situação Hippie ainda prevalecia e insistia em continuar, apesar de decadente e culturalmente ultrapassada. Como tudo no começo choca e cria confusão nas cabeças das pessoas, o Punk surgia como um furacão onde tudo que representasse o passado, o antigo, o conformado, deveria ser varrido do mapa e a partir daí os ideais de Paz e Amor foram substituídos por Atos de Violência e Guerra de Gangues, sem falar do som que era rápido, brutal e despudorado ao ponto de provocar conflitos. Mas por outro lado, toda essa energia destruidora, num segundo momento, passa a ser criadora e profundamente excitante e surgem então as bandas de Punk Rock que darão sentido à coisa e daí em diante, toda uma produção de eventos, fanzines, contatos com outros países, manifestações de rua, visual arrojado e muita ideologia se formando, tornam o Punk Rock um Movimento forte e culturalmente diversificado. Surge então o Hardcore que dá um novo gás ao som e ao estilo que passa a ser mais radical. Os cabelos moicanos, as roupas com rebites e os coturnos passam a fazer parte da indumentária das gangues urbanas e isso acontece de forma livre dos dogmas do início e o Anarquismo passa a fazer parte da ideologia Punk. Bem, isso dura até hoje e o que sinto é que, apesar de toda degeneração ou diluição de estilos, e isso é mais um espelho de nossa sociedade, o Punk busca uma nova identidade dentro dessa confusão toda, procurando se afirmar como um instrumento de mudanças que já dura mais de 30 anos e que bem ou mal, continua radicalizando em sua essência rebelde.

A essência do punk se perdeu no decorrer dos anos?
A Essência nunca se perde, são as pessoas que se perdem…

Além de estar com a banda Invasores de Cérebros na ativa, o que mais você anda fazendo?
Bem, além da Invasores, tenho feito algumas apresentações com minha antiga banda, a Restos de Nada e esporadicamente com a Inocentes, da qual fiz parte no começo dos 80, organizando alguns eventos e discotecando em casas noturnas, escrevendo para sites e revistas, palestras em faculdades e casas de cultura e fazendo trilha sonora para uns vídeos de uma produtora de Alt-Porn, chamada Xplastic.

Se você tivesse a possibilidade de ficar na direção de uma emissora de televisão durante um dia inteiro, o que você faria?
Se tivesse essa oportunidade, mudaria completamente a programação dessa emissora, dando destaque para programas que incentivassem as pessoas a explodirem as grandes antenas das grandes corporações da comunicação e a criar alternativas para uma futura rede libertária de informação e entretenimento.

Como você vê a ferramenta “internet” para uso de bandas e demais agentes envolvidos na cultura underground?
A Internet é do caralho e possibilita muita coisa, inclusive troca de informações, conhecimento, divulgação e tudo o que você pensar em termos de música e vídeo. Nunca nenhuma gravadora poderia imaginar que as músicas de seus cast pudessem ser trocadas livremente pela rede. Ora, as bandas realmente independentes, nunca precisaram de gravadoras mesmo e se agora o que importa é mais do que nunca ser ouvido, visto e divulgado, estamos com uma vantagem enorme, né?

Ariel, muito grata pela entrevista e deixo agora esse espaço pra você falar o que faltou ser perguntado nesse bate-papo e pra você deixar um recado pros leitores do Revoluta
As mensagens continuam sendo: Destruam o Sistema! Uma nova sociedade é necessária, baseada no respeito, na tolerância, no cooperativismo. A Autogestão é possível! Parem de pagar impostos! Façamos a Revolução! Por uma vida melhor!!!