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Ariel “old punk rocker” fala sobre sua vida e a cena underground

outubro 1, 2008

Não tem como falar de movimento punk no Brasil sem citar o nome do Ariel. Figura recorrente dentro da cena underground paulistana, Ariel nasceu na Freguesia do Ó, cresceu de forma simples e logo cedo teve contato com a música.
Em vez de ficar aqui tecendo teorias, o Informativo Revoluta abre o espaço e deixa o Ariel contar como tudo começou, num bate-papo que virou um grande perfil de quem é esse cara que vestiu a camisa do movimento underground nos idos anos 70 e até hoje está aí, resistindo e fazendo o punk rock acontecer, em qualquer bar, qualquer esquina.

Por Deise Santos

Ariel onde você nasceu e cresceu? Qual a sua origem?
Nasci em São Paulo – Capital – Freguesia do Ó – ano de 1960 – Meu pai foi Peão (Mecânico) e minha mãe, solidão (Dona de Casa), como diria o poeta. Estudei até o 2º Grau no E.E.T.A.L., no Bairro do Limão, de onde fui expulso, por ser um delinqüente juvenil, terminando no Colégio Righini no mesmo bairro. Minha infância foi como de qualquer moleque da periferia da Zona Norte, ou seja, rebelde e malcriada. Roubava frutas das casas vizinhas, caçava passarinhos, andava de carrinho de rolimã, empinava pipas, soltava balão, jogava muita bola, rodava pião, brigava com os moleques da rua de baixo, etc. Até conhecer a filosofia de Nietzsche, o existencialismo de Sartre, o teatro da crueldade de Artaud, a poesia futurista de Mayakovsky, a literatura revolucionária de Gorky, o Surrealismo, o Dadaísmo e todos os que iam na contramão da história que nos era contada. Minha adolescência foi nos anos 60 e 70 e eram tempos difíceis para quem era jovem e rebelde, pois a ditadura instalada no país mostrava suas garras e prendia, torturava e até mesmo matava seus detratores. Comecei na música muito cedo, por volta de 1970 e com o que podia escutar de Rock’n’Roll, tive minhas influências nas bandas malditas, como: The Stooges, MC5, New York Dolls, Dust, Cactus, Pink Fairies, etc. Já no meio dos 70, com o Punk Rock ditando as regras, passei a fazer parte dessa nova onda e no final de 78 já fazia parte da primeira banda desse estilo no Brasil, a Restos de Nada.
Nunca me considerei importante nesse movimento, acredito ser apenas mais um produtor interessado nessa cultura que me apaixona e me move cada dia mais e que começou pela minha alma rebelde e contestadora, assim como é o Movimento Punk, desde o seu início.

O punk rock pra você não é só uma balada, é um estilo de vida, assim como é para muitas pessoas. Em que momento da sua vida você notou que não tinha mais volta, que estava totalmente envolvido com a cena?
Realmente o Punk Rock para mim é muito mais que uma balada e chegaria a dizer que não é um estilo de vida e sim, minha própria existência. Notei que não tinha mais volta quando tive contato com o primeiro disco dos Ramones. O visual da capa me inspirou muito e depois de ouvir o som pela primeira vez, notei que era isso o que queria ser e fazer. A partir daí comecei a me aprofundar nessa história e procurar outras coisas compatíveis com esse novo estilo e a partir disso não parei mais…

Junto com outras pessoas você ajudou a construir a cena underground paulistana, ousando e quebrando barreiras. Conte como foi organizar o “Começo do Fim do Mundo” e o “A um passo do fim do mundo”.
“Ousar e quebrar barreiras”, foi isso exatamente o que aconteceu no sopro inicial do movimento e com pessoas que estavam dispostas a encarar as diversas dificuldades impostas, começando pela família, que pela carga de preconceito e desinformação, não entendia as verdadeiras necessidades de uma juventude sedenta de Informação e Liberdade a qualquer custo.
Bem, O Começo do Fim do mundo foi organizado pelo Antonio Bivar, autor do livro “O que é Punk”, pelo Callegari (Inocentes) e pela Meire, que era sua namorada na época. Eu fazia parte da Inocentes, que era “A” banda do Movimento e por conseqüência acabamos nos envolvendo com esse projeto também, mas os méritos são dos caras. A dificuldade principal desse festival foi unir as diversas facções que compunham o Movimento de 1982, principalmente a rivalidade entre as gangues de São Paulo e ABC paulista. Mas acho que no fim, aconteceu o que tinha que acontecer e a visibilidade para o mundo foi o ponto mais positivo.
A Um Passo do Fim do Mundo de 2001 e O Fim do Mundo de 2002, foram organizados por mim, pelo Bivar, pela Tina e pelo Cuga, e contamos com muitas dificuldades, pois eles foram inseridos na Semana Jovem da Prefeitura de São Paulo e sujeito a várias sanções e dificuldades, mas no fim acabamos fazendo na raça mesmo e a participação das bandas e das pessoas envolvidas foi fundamental. Em 2001 foram 54 bandas a se apresentar, sendo todas de São Paulo e em 2002 subiu para 64, sendo aberto para outros estados, como Pernambuco, Curitiba, Rio de Janeiro, Minas e Interior de São Paulo.
Nunca recebemos 1 centavo por tudo isso, apenas a satisfação de realizá-los.

Você sempre foi muito ativo dentro do movimento punk seja participando de bandas, organizando shows ou em grupos anarquistas. Fale um pouco dessas experiências e o que cada uma delas contribuiu para a sua vida:
Sim, reconheço que sempre fui muito ativo, desde os anos de chumbo, onde as gangues espalhavam o terror pela cidade e eu era parte integrante dessas funções, mas não era só isso, já desde muito cedo, quando tinha meus 17 anos, colecionava discos e fazia sons pelos bairros, onde o pessoal ia para dançar, namorar e tudo mais. Quando me vi envolvido com bandas, apesar de não tocar porra nenhuma, já pensava em locais onde pudéssemos nos apresentar e criar condições onde não existia nada e fizemos muita coisa em cima de caminhões, em praças públicas (puxando “gatos” dos postes), em sociedades amigos de bairros, etc.. Nessa época já estava envolvido também com grupos revolucionários, como os Trotskistas: “OSI – Organização Socialista Internacionalista” e “Convergência Socialista”. Mais tarde passei a desconsiderar esse lado Comunista e passei a adotar o Anarquismo como forma de organização política e criei o grupo “Ação e Anarquia” que esteve muito ativo por anos, numa luta contra o sistema e contra os neo-nazistas. Bem, tudo isso serviu para eu me tornar uma pessoa melhor, no sentido de não aceitar as injustiças desse mundão e a não esperar nada de ninguém, levando a máxima “Faça Você Mesmo” ao pé da letra.

Você percorreu os 30 anos de punk rock, vivendo a realidade de repressão policial, ensaios em garagens, shows em cima de engradados de cerveja e briga entre gangues. Qual é a visão do Ariel “old punk rocker” sobre a cena no decorrer desses anos? Pontue, na sua opinião, os
momentos históricos nesses 30 anos de anti-cultura:
A cena do começo era o Caos, onde uma situação Hippie ainda prevalecia e insistia em continuar, apesar de decadente e culturalmente ultrapassada. Como tudo no começo choca e cria confusão nas cabeças das pessoas, o Punk surgia como um furacão onde tudo que representasse o passado, o antigo, o conformado, deveria ser varrido do mapa e a partir daí os ideais de Paz e Amor foram substituídos por Atos de Violência e Guerra de Gangues, sem falar do som que era rápido, brutal e despudorado ao ponto de provocar conflitos. Mas por outro lado, toda essa energia destruidora, num segundo momento, passa a ser criadora e profundamente excitante e surgem então as bandas de Punk Rock que darão sentido à coisa e daí em diante, toda uma produção de eventos, fanzines, contatos com outros países, manifestações de rua, visual arrojado e muita ideologia se formando, tornam o Punk Rock um Movimento forte e culturalmente diversificado. Surge então o Hardcore que dá um novo gás ao som e ao estilo que passa a ser mais radical. Os cabelos moicanos, as roupas com rebites e os coturnos passam a fazer parte da indumentária das gangues urbanas e isso acontece de forma livre dos dogmas do início e o Anarquismo passa a fazer parte da ideologia Punk. Bem, isso dura até hoje e o que sinto é que, apesar de toda degeneração ou diluição de estilos, e isso é mais um espelho de nossa sociedade, o Punk busca uma nova identidade dentro dessa confusão toda, procurando se afirmar como um instrumento de mudanças que já dura mais de 30 anos e que bem ou mal, continua radicalizando em sua essência rebelde.

A essência do punk se perdeu no decorrer dos anos?
A Essência nunca se perde, são as pessoas que se perdem…

Além de estar com a banda Invasores de Cérebros na ativa, o que mais você anda fazendo?
Bem, além da Invasores, tenho feito algumas apresentações com minha antiga banda, a Restos de Nada e esporadicamente com a Inocentes, da qual fiz parte no começo dos 80, organizando alguns eventos e discotecando em casas noturnas, escrevendo para sites e revistas, palestras em faculdades e casas de cultura e fazendo trilha sonora para uns vídeos de uma produtora de Alt-Porn, chamada Xplastic.

Se você tivesse a possibilidade de ficar na direção de uma emissora de televisão durante um dia inteiro, o que você faria?
Se tivesse essa oportunidade, mudaria completamente a programação dessa emissora, dando destaque para programas que incentivassem as pessoas a explodirem as grandes antenas das grandes corporações da comunicação e a criar alternativas para uma futura rede libertária de informação e entretenimento.

Como você vê a ferramenta “internet” para uso de bandas e demais agentes envolvidos na cultura underground?
A Internet é do caralho e possibilita muita coisa, inclusive troca de informações, conhecimento, divulgação e tudo o que você pensar em termos de música e vídeo. Nunca nenhuma gravadora poderia imaginar que as músicas de seus cast pudessem ser trocadas livremente pela rede. Ora, as bandas realmente independentes, nunca precisaram de gravadoras mesmo e se agora o que importa é mais do que nunca ser ouvido, visto e divulgado, estamos com uma vantagem enorme, né?

Ariel, muito grata pela entrevista e deixo agora esse espaço pra você falar o que faltou ser perguntado nesse bate-papo e pra você deixar um recado pros leitores do Revoluta
As mensagens continuam sendo: Destruam o Sistema! Uma nova sociedade é necessária, baseada no respeito, na tolerância, no cooperativismo. A Autogestão é possível! Parem de pagar impostos! Façamos a Revolução! Por uma vida melhor!!!

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Força Macabra – Aqui é o Inferno

outubro 1, 2008

Força Macabra – Aqui é o Inferno
(Agipunk – 2008 – CD)

Uma banda de thrashcore da Finlândia com letras em português? Sim. Pra muitos não é mais novidade, mas não custa lembrar aqui que esse quarteto da longínqua Finlândia foi influenciado por uma certa banda carioca, chamada Dorsal Atlântica e mais algumas tantas da terra brasilis. O novo álbum, assim como os outros, vem recheado de tais influências e soa como uma entrada no túnel do tempo. É como se tirássemos algum vinil empoeirado do armário e resolvesse ouvir. Mas isso não quer dizer que as 13 músicas que compõe este álbum, gravado pela Sonic Pump Studios, de Helsinki, não tenha lá sua originalidade. O fato de levarem as músicas em português, cada vez mais afiado e compreensível, já vale a bolachinha. Destaque para as faixas “Esfera Metal” e “Filhos da Tormenta” e, também, para a arte do álbum, feita pelo artista japonês Sugi.

Contatos:
www.agipunk.com

Por Deise Santos

DFC e Presto? – Inferno na Terra

outubro 1, 2008

DFC e Presto? – Inferno na Terra
(Pecúlio Discos – 2008 – Split/CD)

Como ter um split com 30 músicas e quase 34 minutos para a execução de tais artes sonoras? Simples. Junte os brasilienses do DFC com os paulistanos do Presto? e pronto, aí está o split. Reto, direto, ácido, sarcástico e extremamente brutal. Cuidado, a última música pode chegar enquanto você tenta acabar de abrir o encarte. É tudo rápido e urgente, como se o chão estivesse queimando os pés dos integrantes neste Inferno na Terra transformado em bolachinha. Dispensável dizer que encontramos todas aquelas influências dos anos 80, com guitarras arrastadas, não não são devagar, são arrastadas pelo peso que produzem, acompanhadas de baterias que explodem e apressam a banda até a próxima canção. Não há tempo para conversa. É o Inferno na Terra, produzido por duas bandas que fazem barulho no underground nacional e que, merecida e acertadamente lançaram esse split juntas. Indispensável!
Contatos:

www.myspace.com/dfc
www.myspace.com/paunasualontra

Por Deise Santos

B.U.S.H. – New American Century

outubro 1, 2008

B.U.S.H. – New American Century
(Pecúlio Discos/ 625 Trash – 2008 – CD)

22 minutos, 52 segundos e 52 centésimos. Esse é o tempo que você terá para assimilar o punk rock hardcorizado and roll (esse termo existe?) feito pelo quarteto. Mistura de influências que vêm dos 70’s e muito do que veio da Califórnia nos 80’s, com recheio de guitarras rockeiras, que às vezes são acompanhadas pela cozinha. No decorrer da audição você pode jurar que a banda é de punk rock pura e unicamente, mas de repente riffs te levam para o rock and roll e algumas quebradas na bateria te induzem a dizer: essa banda é de hardcore! Seja qual estilo for, uma coisa é certa: a banda tem uma sonoridade que cativa e um vocalista que dá o sangue em cada letra entoada. E por falar nas letras, elas têm consistência, algumas em português outras em inglês e até uma em espanhol. Mas não se preocupe, todas têm tradução, ou seja, banda consciente de que a mensagem tem que chegar a todos os cantos. São 14 sons + um bônus de 7 músicas do EP Buy us some heroin.

Contatos:
www.myspace.com/bushklan
bushklan@gmail.com

Por Deise Santos

Mundo no Kaos – Será esse o fim?

outubro 1, 2008

Mundo no Kaos – Será esse o fim?
(Demo – CDR – 2007)

Primeiro registro da banda de punk rock e hardcore da Baixada Fluminense, Mundo no Kaos. As letras falam de um cotidiano envolto em problemas sociais, a insatisfação com as autoridades e políticos. A influência de bandas como Cólera, DZK e Lacrau são claras e podem ser reconhecidas em músicas como “Quem é o Verdadeiro Ladrão?”, “Atormentados pela Violência” e “Pela nossa liberdade”. Essa última uma ótima música para ouvir no último volume e, quem sabe, até pogar na sala da sua casa.
A qualidade de gravação não é 100%. O som da caixa da bateria está meio abafado em algumas músicas, mas neste registro, que tem 13 sons, o que importa é divulgar o som até que saia um álbum de verdade. Som para ouvir com os amigos, naquele clima de festa e confraternização que o bom e velho punk rock provoca.
Contatos:
www.myspace.com/bandamundonokaos
lui_punk77@hotmail.com
rafaelmundonokaos@hotmail.com

Por Deise Santos

D.E.R. – Quando a esperança desaba

outubro 1, 2008

D.E.R. – Quando a esperança desaba
(Pecúlio Discos/ Karasu Killer/ Cospe Fogo/ Fuck it all Recs – 2008 – CD)

Pois é. Demorou mas saiu. Tudo bem que a resenha vai sair com alguns meses de atraso, mas o CD também demorou a sair. E o resultado foi o esperado mais o plus de ter toda a rapidez e agressividade sonora que essa turma consegue produzir com notas musicais tocadas na velocidade da luz ou além dela, registradas numa bolachinha. Quem pensa que a esperança desaba e que não é possível pogar ao som do grindcore executado por esses caras sob o risco de embaralhar as pernas, está muito enganado. Em algumas faixas, como em “Lucro e troca” e “A vitória e o fim”, o dono das baquetas Barata, resolve dar uma trégua, mas não por muito tempo, pra que a gente respire, porque no geral as baquetas mais parecem asas de beija-flor que a gente nem consegue ver direito de tão rápidas que são. Poesia? Que nada! Eles cantam o pessimismo, a desesperança, o desespero e a realidade dolorida e incolor que tem em cada ferida aberta na sociedade, sem rodeios, virtuosismo ou meias-palavras. É grindcore, simples e reto. E por falar nisso, que tal ter 16 músicas em pouco mais de 14 minutos? Isso é D.E.R.. Pra completar, o álbum traz um videoclip de “Empregando o capital” e um material gráfico que, de cara, traduz o conteúdo do álbum, a esperança desabou e com direito à trilha sonora.

Contatos:
www.myspace.com/derpunk

Por Deise Santos